CINTRASEUPOVO

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

altinocardoso@sapo.pt Este livro de Altino Cardoso ( Cancioneiro Saloio ) tem modas de recolha poderá comprar ; .também está publicado no ( Cintraseupovo )

terça-feira, 14 de outubro de 2014

CAMISAS DE HOMEM…COLARINHOS

O colarinho é uma evolução das golas de babado usadas na França e do rufo, uma espécie de babeiro que protegia a roupa, por volta do século XVI. As golas que vieram depois lembram as de hoje, mas até 1800 a tendência era usá-las levantadas. Um perigo, já que eram engomadas e poderiam até mesmo cortas as orelhas (!).
Agora que você já sabe um pouco mais da origem dos colarinhos, que tal conhecer os tipos básicos?
Curto (também chamado de italiano)
O modelo de colarinho curto combina com o perfil de roupas slim, bem mais ajustadas ao corpo e são garantia de ar arrojado e moderno. Um nó completo tal como o Windsor deve ser utilizado para complementar a largura da gola. Dica: Este tipo de colarinho costuma destacar ainda mais o pescoço e o rosto. Por isso, é recomendado para homens com rosto mais fino e longo se usado com gravata. Se você está um pouco acima do peso, evite ou use o modelo sem gravata.





Francês
É o mais popular e democrático da camisaria. Cai bem em todos os tipos de nó de gravata e de rosto. Dependendo da versão, o colarinho pode cobrir completamente a parte superior do laço da gravata ou deixá-lo parcialmente descoberto. Este modelo é mais apropriado para os homens com rostos arredondados pois tem como efeito equilibrar esta característica facial.
Americano
Este colarinho foi popularizado como ícone americano, criação da camisaria Brooks Brothers. Caracteriza-se pelo abotoamento na ponta das golas, que revolucionou a moda masculina e originou um dos modelos mais comuns em camisas casuais. Embora este colarinho possa ser usado com gravata, usar o modelo sem gravata parece mais adequado para situações informais.
Mandarim
Este colarinho tem suas origens nos vestidos usados por Mandarins na China Imperial. A gola mandarim é curta e reta e geralmente sobe entre dois a cinco centímetros acima do decote. Normalmente é projetado tanto com bordas arredondadas ou retas na parte superior.




Colarinho Quebrado
Usado em camisas destinadas a trajes formais como o smoking. Este colarinho, fortemente engomado com as pontinhas de pé, tornou-se popular durante o início da década de 1900. Atualmente, este modelo é quase exclusividade de casamentos e festas de gala e pode ser usado com uma gravata borboleta ou uma gravata regular.
Contrastante
Este modelo ficou conhecido também como “colarinho branco” ou “colarinho de banqueiro”, pois estes foram os primeiros a adotá-lo na década de 1980. O colarinho de contraste foi originalmente ligado a um “ultra-profissional”, embora hoje possa ser encontrado em camisas casuais.
E agora, já sabe …
JOSÉ VIDAL




sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Estéticas e políticas do folclore

O termo «folclore» tanto é usado entre nós enquanto sinónimo aproximado de «cultura popular» como serve para designar o estudo ou ainda a figuração dessa cultura. É do folclore neste último sentido que falarei. Refiro-me, mais especificamente, ao folclore dos ranchos folclóricos, dos desfiles de trajes tradicionais e de outras mostras performativas e museográficas de âmbito local ou regional. Seguindo Richard Handler, considero que «a engrenagem da exibição das danças folclóricas é tão cultural como as danças que se exibem» e que, na medida em que «ambas são cultura, cultura moderna, são ambas passíveis de análise antropológica» (Handler, 1993, pp. 67-68). Para ser mais preciso, a abordagem que aqui ensaio tem como ponto de partida um entendimento do folclore enquanto objecto definidor de um campo social, no sentido que Pierre Bourdieu conferiu à noção. Afunilando ainda mais esta opção analítica, foco a atenção ao nível dos discursos sobre o folclore em curso dentro do campo. Nos discursos em torno do folclore português, desde a sua génese, nos anos 30, até ao presente, julgo encontrar uma polarização entre duas formas de concebê-lo — entre um paradigma da reconstituição, que faz do folclore representação tão fiel quanto possível dos costumes de outrora, e um paradigma da estilização, que faz do folclore um objecto em si que circula num mercado próprio e cujas propriedades devem ser condicionadas por essa inserção. Estes dois paradigmas constituem desenvolvimentos extremos de uma tensão inerente à própria figuração folclórica e, nessa medida, ambos orientam programas de acção limitados pelas características objectivas do fenómeno em jogo. Procurarei demonstrar que ambos os discursos são instrumentais nas disputas entre grupos e facções em concorrência no interior do campo e que, ao nível dos centros disciplinares, a transição de um para o outro foi propiciada por mudanças sociais ocorridas no interior e no exterior do campo após o 25 de Abril de 1974. Darei ainda conta da circulação recente de um «discurso sociológico» sobre o folclore, que o articula com noções como «cultura local», «identidade local» e «memória colectiva». Este discurso materializa-se de forma particularmente elaborada em textos cujos autores combinam uma posição influente em arenas do campo do folclore e das políticas culturais de âmbito local ou regional com uma formação académica na área das ciências sociais. Mas as suas categorias elementares circulam num espaço bem mais amplo, sintoma da «sociologização» contemporânea do senso comum. Algumas relações entre este discurso e o das ciências sociais serão objecto de comentário no final do percurso que aqui se traça. Uma última observação preliminar. Neste texto concentro-me essencialmente nos promotores do folclore e nas suas palavras — nos folcloristas «teóricos» em detrimento dos «práticos», para usar uma dicotomia corrente no interior do campo. Por contemplar ficam vários outros intervenientes no mercado do folclore: boa parte dos «actores» (isto é, os tocadores, cantadores e dançadores dos ranchos), os intermediários (organizadores de festas e romarias, industriais do turismo, etc.) e os consumidores. Observar-se-á que as expectativas e as competências dos primeiros e dos últimos são frequentemente dadas por adquiridas nos discursos que aqui se visitam. Está, porém, fora do âmbito deste texto aferir a justeza dessas alegações. Esse é um dos motivos pelos quais, nas páginas que se seguem, não se achará mais do que uma aproximação àquilo que poderia ser um esboço de um retrato do campo do folclore. Um tal retrato só se cumprirá com o rigor necessário mediante uma investigação sistemática que contemple todos os intervenientes e que explore também, muito para além das sugestões que aqui se fazem, as articulações entre as respectivas posições dentro do campo e as que ocupam noutras arenas de interacção. os leigos tendem a ignorar ou a amalgamar coisas que os jogos de poder no interior dos campos respectivos tratam de distinguir. A este primeiro índice, negativo, da existência de um campo folclórico podemos acrescentar outras observações mais transparentes: Há em Portugal mais de 2000 associações culturais e recreativas de base local e regional que usam o adjectivo «folclórico» ou outros termos semanticamente aparentados para se designarem a si próprias2. A maioria destes grupos dedica-se exclusivamente à figuração espectacular de danças e/ou cantares tradicionais, embora alguns trabalhem num domínio mais amplo do registo «etnográfico». Além dos cerca de trezentos ranchos folclóricos enquadrados na Federação do Folclore Português, contam-se centenas de outras agremiações espalhadas por todo o país. Trata-se de grupos constituídos por amadores — pessoas que amam o folclore mas que tiram o seu sustento de outras actividades. Centram- -se com frequência na figura de um líder carismático e são, em geral, nula ou incipientemente burocratizados — muitos deles não possuem sequer existência jurídica . Existe um mercado bem estabelecido de exibição e de consumo do folclore. Trata-se de um mercado dinamizado por mediadores, como as comissões organizadoras de festas locais e de romarias, editoras discográficas, agentes de turismo e da indústria hoteleira e políticos locais. Ao mesmo tempo que se abastecem do folclore para capitalizarem ganhos em esferas diversas da vida social — da esfera económica à das políticas comunitárias —, aqueles agentes abastecem os agrupamentos folclóricos dos públicos e do capital de que estes carecem para se manterem em funcionamento. Além destes mediadores, existem instituições oficiais de âmbito municipal, regional e nacional que estimulam e patrocinam o trabalho dos ranchos, seja através de aconselhamento técnico, seja por via da atribuição de apoios logísticos e financeiros, seja ainda mediante a organização de festivais e colóquios. Refiro-me especialmente ao Instituto Nacional para o Aproveitamento dos Tempos Livres dos Trabalhadores (INATEL), às regiões de turismo e também a muitas câmaras municipais. Existem manifestações culturais exclusivamente dedicadas à exibição e ao consumo do folclore, como os festivais de folclore e os cortejos etnográficos. Existem redes formais e informais de contacto entre ranchos, nas quais se desenvolvem relações de reciprocidade e de antagonismo. Havendo boas relações entre os grupos, através dessas redes circulam, por exemplo, não só convites para actuações públicas, para colaborações em empreendimentos conjuntos, como também tocadores — um dos bens mais requisitados neste mercado. Finalmente, existe desde há mais de duas décadas uma organização federativa que tem como objectivo expresso — como principal razão de ser, acrescentaria — alcançar o monopólio da autoridade disciplinar sobre os agrupamentos folclóricos nacionais. Refiro-me à Federação do Folclore Português. MONOPÓLIOS DA DISCIPLINA Quero focar a atenção neste último ponto. A Federação do Folclore Português foi criada em 1977, três anos após o 25 de Abril. O campo do folclore formara-se no nosso país durante o Estado Novo . Através de organismos como a Federação Nacional para a Alegria no Trabalho, a Junta Central das Casas do Povo e o Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo, o Estado Novo fomentou a multiplicação de agrupamentos folclóricos locais, ao mesmo tempo que procurou exercer uma supervisão zelosa sobre o funcionamento interno dos mesmos, cobrindo desde os assuntos institucionais até aos conteúdos coreográficos. O investimento do Estado Novo no folclore fez parte do trabalho de redução do «popular» ao «camponês» e de decantação e elogio da tradição e da rusticidade que caracterizou a retórica nacionalista hegemónica neste período5. A esteticização do folclore nos palcos articulou-se, por um lado, com medidas práticas de disciplinamento estatal e eclesiástico dos costumes do campesinato, mormente de alguns dos seus hábitos festivos (cf. Sanchis, 1983). Por outro lado, o pendor «visualista» e espectacular do folclorismo fomentado pelo Estado Novo subalternizou trabalhos de pesquisa etnográfica cuja eficácia social imediata se afigurava menor ou potencialmente corrosiva dos cânones da retórica nacionalista . Em concreto, tenho em mente as pesquisas que Fernando Lopes Graça e Michel Giacometti empreenderam naquele período (cf. Ferrão, 1996). A criação da Federação do Folclore Português ocorreu, ficou dito, na sequência da dissolução do Estado Novo. Nos mais diversos campos da sociedade portuguesa, o fim do autoritarismo de Estado permitiu a multiplicação, a concorrência e a autonomização de poderes. No domínio do folclore, a instituição de uma federação nacional havia sido defendida desde 1959 por vários daqueles que viriam a dirigi-la, mas fora sempre protelada pelos organismos oficiais (cf. Sousa, 1996, p. 19, nota 7). Finalmente, criada em 1977, a Federação intentou preencher o vazio deixado pela derrocada do monopólio estatal do disciplinamento desta actividade, substituindo-o por um monopólio de especialistas desvinculados do aparelho de Estado . Para fundamentar esta afirmação, leiam-se, por exemplo, os argumentos que Manuel Chaves e Castro desenvolveu num texto publicado nas actas do primeiro congresso da Federação. Depois de aludir à manipulação ideológica do folclore no Estado Novo, o autor escreve o seguinte: Na democracia em que vivemos, pela maneira de ser da maioria do povo português, está provado não ser desejável em Portugal qualquer tipo de dirigismo estatal do folclore. Deseja-se que sejam mantidas com pureza e verdade as tradições autênticas. Deseja-se e exige-se que essa acção se desenrole através do povo ou dos organismos para o efeito seus representantes de pleno direito. No caso das danças, cantares, trajos e tocatas, apenas a Federação do Folclore Português pode e deve actuar. É do povo, é séria como ele próprio, que a enforma, é apolítica, é capaz nos sistemas de trabalho e consciente nos objectivos a atingir. O povo será o seu vigilante e o seu juiz [Castro, 1979a, p. 20, itálico meu]. Notar-se-á neste trecho a recorrência de um uso retórico do «povo» muito difundido no período pós-revolucionário, não só no movimento folclorístico, mas em variados sectores da sociedade portuguesa. Os contornos da separação entre o Estado e a Federação que Castro advoga na passagem citada são depois esmiuçados pelo autor na seguinte agenda para uma concordata: o Estado deve legislar para que «as regras com vista à dignificação das manifestações folclóricas» sugeridas pela Federação sejam cumpridas; deve fornecer meios à Federação, mas nunca competir com ela em «acções paralelas»; não lhe ficará mal, por exemplo, «possuir arquivos completos sobre folclore», contanto que a organização dos mesmos se faça sempre em «ligação fraterna com a Federação»; nunca deverá, seja centralmente, seja através das autarquias locais, substituir-se à Federação na «avaliação da pureza dos grupos ou conjuntos, dos cantares, dos trajos ou das músicas» (Castro, 1979a, p. 20). À Federação, em suma, competirá disciplinar o folclore nacional. O Estado deverá limitar-se a reconhecer a utilidade social e a autoridade daquele organismo e a apoiá-lo institucional e financeiramente. Ao insistir na vontade disciplinadora da Federação como alicerce primeiro da sua existência não faço mais do que reproduzir o conteúdo explícito dos textos programáticos publicados pelos seus fundadores. O artigo de Manuel Castro que venho citando intitula-se, precisamente, «A disciplina no folclore». «Disciplina», esclarece o autor, «significa instrução e educação; observância de preceitos; submissão a um regulamento; ensino; doutrina» (1979a, p. 19). E como justificar a exigência de uma autoridade doutrinária e regulamentadora no mundo do folclore nacional? Castro ensaia uma resposta através da seguinte parábola: A força da electricidade obtém resultados maravilhosos, mas para isso deve ser controlada, conduzida através de cabos e fios, passando por centrais transformadoras, sujeitando-se a interruptores. Todas essas acções terão de ser executadas por especialistas, pois, quando os leigos tentam intrometer-se, arriscam-se a ficar queimados e a queimar os locais onde estejam, a destruir as próprias fontes de energia ou, no menos, a desperdiçar uma preciosa parte dessa mesma energia. Também o Folclore é uma «força» que necessita de ser conduzida e controlada com cautela e saber, por especialistas apenas, e nunca por «artesãos» na matéria, sofisticados ou ingénuos, arrogantes de conhecimentos teóricos ou manipulados por ditames de origem controversa, encapotados ou não Facilmente se transplantaria esta justificação da necessidade de um monopólio do saber folclórico para diferentes campos sociais, bastando para tal substituir apenas, no segundo parágrafo, «o Folclore» por outras «forças», como «a graça divina», «o conhecimento científico» ou «o tratamento das doenças». Se a urgência em desestatizar o controle do folclore ficara justificada pela propensão instrumentalizadora do poder político central de que o Estado Novo havia dado prova, a necessidade de manter, ainda assim, uma autoridade disciplinar fica justificada pela presumida incompetência dos leigos. Porém, como ilustrarei adiante, nem todos os «leigos» reconhecem a pretensão hegemónica da Federação, e por isso ela não passa de uma aspiração. O programa disciplinar assumido pela Federação do Folclore Português pretende marcar uma ruptura com a ortodoxia anterior. Ao paradigma da estilização assumido por muitos folcloristas centrais durante o Estado Novo, mesmo quando encarado como um «mal necessário», vem a Federação contrapor um paradigma da reconstituição como cânone disciplinar. As palavras de ordem são agora rigor, genuinidade, autenticidade. O objectivo de um rancho deve consistir em alcançar o máximo de similitude entre a representação folclórica e o seu remoto original: [...] um grupo folclórico deve constituir-se com o louvável propósito de representar com a autenticidade possível a realidade social, económica e cultural da sua região numa determinada época [Mendes, 1990, pp. 66]. O componente de um grupo folclórico que quer dar a conhecer os usos e costumes de meios rurais ou piscatórios terá e deverá, por consideração pelas gentes que representa e por respeito a si próprio, ser fiel espelho dos seus ancestrais [Castro, 1979b, p. 6]. Para que o folclore consiga espelhar o passado, o autor do último trecho citado especifica um conjunto de medidas concretas: que se usem apenas os trajes que «ultrapassam ou igualam a centena de anos»12; que para esse efeito se pesquise o património das «famílias da região», ou, em alternativa, se utilizem «as descrições verbais dos mais velhos» ou suportes iconográficos coevos como a fotografia, o desenho, a pintura, a gravura e a escultura; que os ranchos não enverguem trajes absolutamente iguais13, tendo ao mesmo tempo o cuidado de não misturar num mesmo figurino peças típicas de grupos sociais e ocupacionais distintos e de não insistir em demasia nos fatos de cerimónia; que se atente na congruência entre os acessórios (calçado, calças interiores, chapéus, relógios de pulso, brincos e colares) e o demais vestuário; finalmente, que as raparigas e os rapazes cuidem da relativa ancestralidade do seu aspecto físico, não abusando elas «das pinturas do rosto, das pestanas postiças ou das sombras em volta dos olhos que sem isso seriam até mais formosos» e evitando eles o «uso de cabelos compridos, imitando os componentes dos ruidosos conjuntos de música pop» (Castro, 1979b, pp. 5-6)14. Como esta última observação deixa entrever, concomitante com a defesa da reconstituição, verifica-se um investimento na diferenciação entre o «folclórico» e o «popular», entre um «popular folclórico» e um «popular não folclórico». Se atendêssemos apenas em abstracto à familiaridade semântica dos vocábulos em jogo, concluiríamos estarmos perante um exercício paradoxal. Na prática, porém, este exercício é uma variante do trabalho de diferenciação entre um «popular positivo» e um «popular negativo» que, de acordo com Bourdieu, ocorre frequentemente em múltiplos campos sociais: Se o «popular» negativo, isto é «vulgar», se define [...] antes de tudo como o conjunto dos bens ou dos serviços culturais que representam obstáculos à imposição de legitimidade através da qual os profissionais visam produzir o mercado (tanto quanto conquistá-lo) criando a necessidade dos seus próprios produtos, o «popular» positivo (por exemplo, a pintura naïve ou a música folk) é produto de uma inversão de sinal que alguns peritos, a maioria das vezes dominados no campo dos especialistas (e provenientes de regiões dominadas do espaço social), operam num esforço de reabilitação que é inseparável da busca do seu próprio enobrecimento [Bourdieu, 1987, p. 179]. A ironia desta diferenciação no campo do folclore reside no facto de, num certo sentido, o «popular positivo» ser uma categoria inerente à existência do campo: ela jamais poderia estar ausente dos discursos produzidos pelos intervenientes num mercado que tem como produto distintivo os costumes tradicionais do povo. Uma especificidade deste campo — uma especificidade que aparentemente desafia a regra geral exposta por Bourdieu — está precisamente na circunstância de nele a afirmação de um popular positivo não ser assumida apenas por alguns especialistas empenhados na sua reabilitação e no enobrecimento pessoal, mas constituir antes o projecto aglutinador de todos os intervenientes. Mas, se tomarmos em conta o espaço social envolvente, podemos observar que isso acontece na exacta medida em que o campo do folclore é, no seu todo e para lá dos mecanismos internos de distinção, um campo periférico no conjunto dos campos de produção cultural . Embora o campo do folclore possa ser entendido, no seu conjunto e em sentido lato, como um mercado de valorização positiva do «popular», não deixa de ser verdade que essa valorização é selectiva: ela realiza-se mediante a demarcação do domínio do «folclórico» face ao domínio do «popular» e também mediante a condenação das hibridações que essa demarcação produz. Na medida em que os especialistas o são na medida em que façam crer que possuem um conhecimento distinto, eles estão forçados a censurar quer a popularização do folclore (a constituição de ranchos folclóricos por indivíduos que ignoram os cânones da reconstituição, seja por não os conhecerem, seja por não lhes reconhecerem valor canónico), quer a folclorização do popular [por exemplo, o uso na figuração folclórica de pinturas no rosto, pestanas postiças e cabelos compridos, de que falava Castro, ou a inclusão de instrumentos de sopro feitos de plástico nas tocatas, que Gomes dos Santos (1990) deplora]. Como constatava há já mais de trinta anos o folclorista Renato Almeida, dissertando sobre as relações entre «música folclórica » e «música popular», «a dificuldade, na distinção dessas duas feições musicais, está mais no definir do que no conhecer» (1963, p. 129, itálico meu). Esta franca constatação põe em evidência que a definição do folclore tem sido menos uma questão de descobrir uma familiaridade objectiva (musicológica ou sociológica) entre modos de expressão musical do que um exercício permanente de circunscrição do «genuinamente popular» face àquilo que se vai popularizando. O domínio do folclore mostra-se por isso avesso a qualquer definição definitiva. Quero, enfim, sugerir que a mudança de paradigma não é gratuita ao nível do seu conteúdo, não ocorre no vácuo. Ela representa uma rejeição da política cultural do Estado Novo que a democracia veio possibilitar e mesmo estimular. Ela parece também dever muito à transição de uma elite de folcloristas que não dependiam inteiramente do folclore para o seu reconhecimento social, para uma elite cujo investimento existencial no campo é mais forte. Nessa medida, a mudança paradigmática será um sintoma da própria autonomização do campo. Sublinho que esta sugestão necessita de ser testada — e porventura matizada — mediante uma análise minuciosa dos percursos biográficos dos principais impulsionadores do folclore nos períodos anterior e posterior ao 25 de Abril. Por último, é imprescindível observar que, tendo sido a Federação do Folclore Português o principal agente inicial da mudança de paradigma, esse protagonismo não lhe pertence em exclusivo. Folcloristas descomprometidos com aquele organismo têm igualmente batalhado pela elevação das figurações folclóricas mediante uma articulação das mesmas com recolhas etnográficas locais. Alguns assumem-se como críticos da Federação, não tanto por discordâncias de fundo quanto ao discurso dos líderes federativos, mas por observarem discrepâncias entre esse discurso e a sua concretização, nomeadamente ao nível das práticas de inclusão e exclusão dos ranchos e ao nível da acessibilidade e da qualidade do aconselhamento técnico que a Federação coloca à disposição dos mesmos. Estéticas e políticas do folclore Nos primeiros tempos do Rancho [isto é, em meados dos anos 50], as danças não tinham a organização que têm hoje, ainda se assemelhavam muito à prática do dia a dia. Os bailadores iam para o palco à luz daquilo que se fazia nos serões. Dantes as pessoas dançavam sem saberem que estavam a dançar — estavam a namorar e dançavam. A dança estava-lhes no corpo. Não era tudo certinho como hoje. Se hoje dançássemos assim, levávamos uma assobiadela [...] A desorganização é o natural do folclore. Por isso o folclore é uma contradição. A espectacularização das danças folclóricas transformou-as em algo diferente do que eram quando «as pessoas dançavam sem saberem que estavam a dançar» e por isso a demanda de autenticidade no palco é uma utopia condenada a gorar-se. O director artístico do Rancho de Dem é criticado pelos apologistas da reconstituição folclórica, que focam a sua reprovação em três opções coreográficas: o ritmo demasiado «ligeiro» que ele imprime às danças, a elevação excessiva dos braços dos bailadores e a compressão de técnicas de dança distintas numa mesma composição. Conhecedor destas críticas, Desidério Afonso tem justificação para todas elas. Em relação ao ritmo, considera que não existe propriamente uma regra, que tudo depende da personalidade dos dançadores. Além de corresponder ao seu estilo pessoal, o tempo ligeiro confere às danças uma vivacidade que, segundo ele, é muito apreciada pelo público do folclore: «O público em geral, mesmo nas aldeias, já não se reconhece no seu folclore. Há uma ou outra excepção lá no cimo da serra. Mas, em geral, prefere um ritmo rápido e o tecnicamente perfeito ao genuíno.» Quanto à postura dos braços, argumenta que aquela que ensina foi a que aprendeu junto de Pedro Homem de Mello: «Eles dançavam com os braços para baixo, e o Pedro Homem de Mello dizia que o dançarino do Alto Minho tem que dançar com os braços para cima .» Finalmente, no que diz respeito à aglutinação de técnicas de dança que originalmente pertenciam a temas distintos, Desidério Afonso justifica-as como necessárias face às actuais «exigências do público» e dos circuitos de exibição: Hoje em dia não podemos dançar mais de seis ou sete danças num espectáculo ou num festival, as pessoas aborrecem-se. Por isso diminuímos o número de danças que ensaiamos e incorporámos em algumas técnicas de outras que ficaram de fora. Poderíamos ter escolhido conservar um repertório de vinte danças e ir rodando... Mas isso exigiria muito tempo de ensaios, e a maioria das pessoas trabalha. É isto que leva à condensação de danças: dançamos a Velha mas, como não queremos perder o Malhão, introduzimos algumas técnicas do Malhão na Velha. O destaque que até aqui venho dando à reflexão em torno da figuração folclórica decorre da importância que o tema assume na literatura sobre folclore, nas comunicações apresentadas em colóquios da área, nas pequenas polémicas entre ranchos vizinhos. Ela fornece, por outras palavras, o idioma para a diferenciação e para a concorrência no interior deste campo social. Mas a actividade dos agrupamentos folclóricos e a matéria dos discursos que a vão problematizando ou disciplinando não se esgotam na figuração. Por exemplo, a ênfase que a orientação disciplinar hoje dominante coloca nas recolhas etnográficas, apresentadas como garantia de uma figuração séria e não «folclorística», tem incentivado muitos ranchos a empreenderem algum trabalho nesse domínio. Por vezes, as recolhas transcendem o propósito de auxiliar a figuração de danças, cantares e indumentárias tradicionais, conduzindo à constituição de pequenos museus etnográficos. Mesmo os grupos que não enveredam por este caminho — que são seguramente ainda a maioria — desempenham um conjunto de funções que podem até certo ponto ser separadas da figuração. Em conversas trocadas com elementos de ranchos — sobretudo não se tratando de dirigentes, pessoas cujo investimento existencial no campo tende a ser menos intenso, portanto — têm- -me sido apontadas razões diversas para o ingresso ou para a permanência nesses agrupamentos: o rancho enquadra e permite desenvolver o gosto pela execução musical, pelo canto e pela dança; proporciona um espaço local de convivialidade intergeracional e juvenil que de algum modo contraria a dispersão sócio-cultural estimulada por factores como a escolarização diferenciada e a diversificação da oferta de destinos laborais e de estilos de vida; constitui uma arena de aproximação entre rapazes e raparigas aceite pelas respectivas famílias; abre oportunidades de viajar gratuitamente pelo país e ao estrangeiro. É seguramente empobrecedor reduzir a génese das práticas às justificações verbalizadas pelos sujeitos, tanto mais que as perguntas («por que é que estás no rancho?») criam respostas, assim como os inquéritos produzem opiniões. Mas, ao mesmo tempo, é exagerado pretender que as justificações discursivas nada têm a ver com a motivação das práticas. Aposto então que as razões que sumariei recobrem uma parte do quadro motivacional que anima os membros dos ranchos folclóricos. Se esta hipótese estiver correcta, convirá aprofundar uma abordagem comparada do folclore no contexto do associativismo de base local que permita circunscrever melhor a sua especificidade a esse nível, tarefa que ultrapassa os objectivos deste texto. O trabalho etnográfico, para lá da investigação das formas sociais do passado, pode afirmar-se como um trabalho sobre a consciência colectiva do tempo, isto é, sobre o modo como as pessoas pensam o tempo. Pelas suas exibições e exposições, e não só, os grupos podem ajudar à tomada de consciência de que o hoje é diferente do ontem e que os comportamentos de hoje não podem copiar os de ontem. Talvez então o trabalho dos grupos folclóricos e etnográficos tenha que se alargar. Uma exposição sobre alfaias agrícolas caídas em desuso talvez deva ser complementada com um filme cujo enredo reconstitua esse tempo «perdido» e com um debate sobre os actuais problemas da agricultura e ainda um documentário sobre agricultura industrial e talvez ainda uma visita de estudo a estufas e fábricas que [...] Tudo isto e muito mais constitui e valoriza o produto turisticamente vendável, quer no turismo interno, quer no externo, e contribui para que o desenvolvimento turístico não se faça à custa daqueles que deveriam ser os seus primeiros beneficiados: a população local [Jana, 1990, pp. 94-95]. Citei em extensão este texto porque me parece que, não obstante a sua originalidade, ele revela um conjunto de preocupações cada vez mais frequentes na literatura recente sobre o folclore e nos debates em congressos da área31. Trata-se, resumidamente, de uma vontade de conciliar o folclore enquanto mercadoria para consumo local ou turístico — tal como ficou formatado na fase de formação do campo — com o folclore enquanto instrumento ou pretexto de comemoração da localidade e de reflexão sobre a identidade local. Afinando pelo mesmo diapasão, Henrique Rabaço, do Departamento de Etnografia e Folclore do INATEL, falava recentemente do «património etnológico» das localidades e regiões periféricas como fonte de «vantagens competitivas» no panorama contemporâneo de «globalização económica» e de crescimento das indústrias do turismo; e nesse sentido defendia o «reforço da identidade local face aos modelos globais homogeneizados» como via para o «desenvolvimento local» susceptível de envolver a actividade dos ranchos folclóricos. A ironia, como antropólogos e sociólogos têm notado, é que o «reforço da identidade local» é precisamente um dos modelos culturais globais mais «homogeneizados». Como escreve Richard Handler, «like a row of ethnic restaurants in any North American city [...] nations and ethnic groups participate in a common market to produce differences that make them all the same» [1988, p. 195]. O investimento dos ranchos na produção de diferença entre localidades é realizado dentro de um idioma — o «folclore» — que, a um nível mais amplo do espaço social, as assemelha a todas. A adesão a esse idioma é em parte resultado de um longo processo de dominação simbólica que povoou o «mundo rural» de representações arcaizantes provenientes dos centros políticos e intelectuais. E falo em «dominação», e não em imposição, porque o sucesso e a persistência do «folclore» nesse mundo indiciam que ele recobre, em parte pelo menos, uma gama de experiências estéticas e sensoriais que recebem localmente uma adesão e uma valorização positivas. Por outro lado, se o folclore pode constituir de diversas formas um capital para as localidades periféricas (como raiz de «segurança ontológica» , como fonte de promoção e de receitas através do turismo), ele tende a constituir também um limite da representação de si que elas podem produzir. Sintoma disso, pelo menos na zona do país que estudei com mais pormenor, é o facto de boa parte das associações culturais locais serem agrupamentos de cariz folclórico ou etnográfico. O folclore, noutras palavras, impõe-se com especial força enquanto campo de investimento existencial, ou de socialização da líbido, nas áreas mais «regionalizadas» pela geografia sócio-política do país. Como contraponto a este estado de coisas, o parágrafo final do texto de José Eduardo Jana que citei — um texto mais programático do que analítico, repito — indica que um caminho para a renovação do folclore, e se calhar para a sua transformação noutra coisa, pode passar pela substituição da comemoração nostálgica de um passado longínquo por um investimento em trabalhos mais aprofundados em torno da historicidade da cultura local e em reflexões sobre o futuro. A proliferação recente de jovens formados em ciências sociais nas associações folclóricas poderá contribuir para um tal corte paradigmático dentro do campo — ou para mais uma fractura. No panorama presente, então, os jovens dirigentes, pensadores e fazedores do folclore encontram-se perante o desafio difícil, mas estimulante, de articular a vontade de promover o conhecimento e o desenvolvimento sócio-cultural das suas localidades com a orientação disciplinar de um campo de produção cultural historicamente implicado na reificação arcaizante da «cultura», da «identidade» e da «memória» locais e com a consciência sociológica da historicidade intrínseca dos referentes dessas noções. José Vidal

terça-feira, 13 de agosto de 2013

A HISTÓRIA DA CRIANÇA

Brincar na I República No início do século XX as brincadeiras favoritas das crianças desenrolavam-se ao ar livre. Tanto no campo como na cidade, brincava-se fazendo diversos jogos, como o do pião, preferido pelos rapazes, os jogos de roda, os eleitos das meninas, o das escondidas, o da cabra cega ou o do pezinho. Muitas vezes imitavam-se os jogos que os adultos faziam ao Domingo, como o da malha ou até o futebol, jogado com uma bola de trapos feita pelas mães com restos de tecidos e meias rotas. Brincava-se também com o arco e a gancheta, aproveitando os aros velhos de barris, controlados por uma gancheta de ferro, com a funda, utilizada frequentemente em competições de tiro ao alvo, com bonecas de trapos e com brinquedos em miniatura, construídos, quase sempre, pelas crianças, imitando animais, barcos e figuras humanas. No campo eram também comuns as brincadeiras com moinhos, com velas feitas a partir de caules de milho, a construção de adornos como colares, aproveitando as flores silvestres, os bugalhos e as bolotas, ou a elaboração de instrumentos musicais como flautas, a partir de canas. Já as crianças das classes mais elevadas tinham acesso a outro tipo de brincadeiras, sobretudo após o desenvolvimento da indústria de brinquedos na segunda metade do século XIX. Desde cavalinhos de baloiço, a carrosséis de corda, a barcos com motor, carros, bonecas de porcelana ou soldadinhos de chumbo, toda uma nova variedade de brinquedos alargou a oferta e diversificou as actividades e práticas infantis. Eram brinquedos comprados pelos pais, feitos de variados materiais, como madeira, pasta de papel ou folha de estanho. Actualmente, a criança parece se situar como um sujeito que detêm seu espaço na sociedade, um indivíduo exigente, questionador, possuidor de mercado consumidor, leis, programas televisivos e ciências dedicadas a elas. Mas, a idéia de infância é extremamente moderna. Num percurso histórico, percebe-se que o conceito de infância vem sofrendo modificações. As crianças estão ausentes na história no período que compreende a Antiguidade até a Idade Média por não existir este objecto discursivo que chamamos ‘infância’, nem esta figura social e cultural ‘criança’. O historiador Áries complementa: (...) o sentimento da infância não existia - o que não quer dizer que as crianças fossem negligenciadas, abandonadas ou desprezadas. O sentimento da infância não significa o mesmo que afeição pelas crianças: corresponde à consciência da particularidade infantil, essa particularidade que distingue essencialmente a criança do adulto, mesmo jovem. Essa consciência não existia. De acordo com Áries, as crianças eram vistas nos séculos XIV, XV e XVI como um adulto em miniatura. O tratamento social dispensado a criança era igual ao de adultos, ou seja, sinônimos. Ser criança era um período breve da vida, pois logo se misturavam aos mais velhos. Elas participavam de todos os assuntos da sociedade, adquiriam o conhecimento pela convivência social. Adultos, jovens e crianças se misturavam em toda actividade social, ou seja, nos divertimentos, no exercício das profissões e tarefas diárias, no domínio das armas, nas festas, cultos e rituais. O cerimonial dessas celebrações não fazia muita questão em distinguir claramente as crianças dos jovens e estes dos adultos. Até porque esses grupos sociais estavam pouco claro em suas diferenciações. Nesse aspecto, o serviço doméstico se confundia com a aprendizagem consistindo em uma forma de educação da criança. A passagem pela família era rápida e insignificante. Geralmente, a partir dos sete anos, as crianças iriam viver com outra família para serem educadas. Pelos estudos de Áries, percebe-se que não havia uma educação letrada. As crianças eram entregues às famílias, muitas vezes desconhecidas ou vizinhos, para prestarem serviços domésticos ou aprenderem algum ofício. Essas aprendizagens tinham alguns intuitos. Segundo Gélis: As aprendizagens da infância e da adolescência deviam, pois, ao mesmo tempo fortalecer o corpo, aguçar os sentidos, habitar o indivíduo a superar os revezes da sorte e principalmente a transmitir também a vida, a fim de assegurar a continuidade da família. Conforme Áries, os pequenos entravam logo no mundo adulto e não dependiam tanto dos pais. Esses sim dependiam deles, pois quanto mais filhos, mais braços teriam para trabalhar. Devido à situação de fome, miséria, tragédia e a falta de saneamento básico pelas quais as pessoas da Idade Média viviam, a taxa de mortalidade infantil era muito alta. A morte de uma criança não era recebida com tanto sentimento e desespero como acontece hoje. Rapidamente a tristeza passava, e aquela criança era substituída por outro recém-nascido para cumprir sua função já pré-estabelecida. Constata-se que a mortalidade infantil na Europa medieval, mesmo entre ricos e pobres, mostra o relativo descaso pelas crianças. Verifica-se também que nas famílias pobres havia uma preocupação desde cedo para a criança trabalhar nas lavouras ou serviços domésticos. “A primeira infância era época das aprendizagens”. Aquelas que pertenciam às famílias nobres aprendiam as artes de guerra ou os ofícios eclesiásticos. Essa realidade comprovava que não havia muito tempo por parte dos pais para dar carinho e dedicação a elas. A inquietação para ensiná-las um ofício e a atenção dos pais nos seus trabalhos, na guerra ou pedindo esmolas proporcionava tal situação. De acordo com estudos do período e de Badinter, o amor dos pais aos filhos era selectivo. Com a regra de primogenitura, o filho mais velho teria direito de ser o único herdeiro após a morte do pai. Excluía dessa maneira os demais filhos. Os pais sempre preferiam ter filhos do sexo masculino ao invés do feminino. Não viam vantagens financeiras em ter uma filha, mas sim, preocupações, exemplo disso é o dote. Nota-se, que apesar da idéia de criança e infância ter se transformado em nossos dias, muitas concepções descritas acima referentes ao período de transição medieval para a moderna permanecem presentes, ainda que de forma disfarçada em algumas crenças e práticas de nosso tempo. É só a partir do século XVI que mudanças de concepções referentes à criança e a infância são notadas. Do século XVI para o XVII, na Europa, começam a perceber a criança como um ser diferente do adulto. Surge um sentimento de infância. Sentimento esse um pouco distorcido, uma vez que as crianças eram vistas como objecto lúdico dos adultos. “ Um sentimento que poderíamos chamar de ‘paparicação’” Nesse momento que a infância estava começando a ser descoberta na Europa como uma idade específica da vida, como nos lembra Áries, pois inexistia o sentimento de infância antes da Idade Moderna, constituía a época em que estava ocorrendo à colonização do Brasil. Dessa forma, os europeus, enquanto colonizadores trouxeram seus valores, costumes, e naturalmente suas idéias referentes à infância para o Brasil. Assim, dentro dessa nova construção moderna, foram sendo soterradas concepções de criança como um adulto anão e paulatinamente foi cedendo lugar para a afirmação da infância como uma construção social. Inserido nesse aspecto de práticas que vieram para a colônia com os colonizadores, Del Priore retrata o sentimento de paparicação na época colonial brasileira dizendo: (...) crianças pequenas, brancas ou negras, passavam de colo em colo e eram mimadas à vontade, tratadas como pequenos brinquedos. (...) As pequenas crianças negras eram consideradas graciosas e serviam de distracção para as mulheres brancas que viviam reclusas, em uma vida monótona. Eram como que brinquedos, elas as agradavam, riam de suas cambalhotas e brincadeiras, lhes davam doces e biscoitos... Aos poucos vai solidificando a noção de infância, e o Iluminismo na Europa inaugura a preocupação com essa questão por meio de estudos e pesquisas. Nesta direcção, era preciso formar o “novo homem”. Para Ghiraldelli a escola entra não só com o papel fundamental de simplesmente educá-las, mas libertá-las da ignorância e do caminho do mal. Esta idéia advinha do Iluminismo. Os adeptos dessa corrente de pensamento acreditavam que a razão humana deve dominar acima de tudo e de todos. Entretanto, as instituições educativas seriam responsáveis por desenvolver o potencial destes preparando-as para a vida e o trabalho. Além do que, lançavam olhares sobre a criança como um animalzinho de estimação, um ser irracional, que vivia de acordo com os pensamentos e desejos dos outros. Não conseguiam perceber nelas a capacidade de pensar, querer e sentir. Percebe, porém, que a educação escolar não era entendida da mesma forma e aplicada com a mesma qualidade para todas as camadas sociais durante o período moderno. Os filhos dos burgueses eram preparados para ocupar os altos cargos. Os filhos de famílias pobres muitas vezes não chegavam a ir para escola, e quando a frequentavam eram treinados para os trabalhos secundários como de carpinteiros, pedreiros ou agrícolas. Segundo Ariès, as classes populares européias continuaram tendo por muito tempo, a idéia de uma infância curta e fundida com os adultos. Del Priore mostra que, no Brasil colonial a partir dos sete anos, os filhos de senhores iam estudar e dos pobres e escravos trabalhar. Segundo as teorias religiosas, as crianças nasciam do pecado e eram símbolos da força do mal. Ghiraldelli afirma que essa idéia foi difundida desde Santo Agostinho. “ Como se sabe, Santo Agostinho viu a criança imersa no pecado, na medida em que, não possuindo linguagem (“infante”: o que não fala – portanto, aquele que não possui logos), mostrar-se-ia desprovida de razão,...” Os intelectuais e pensadores da modernidade adeptos desse pensamento acreditavam que a escola tinha o objectivo de corrigir as crianças que viviam em constante estado de pecado, ou seja, gulosas, preguiçosas, indóceis, desobedientes, briguentas e faladoras. Nessa perspectiva, as crianças eram vistas como um material a ser moldado. Era como se a infância fosse uma coisa tenebrosaque precisava ser apagada. Badinter explana as idéias desses pensadores: É preciso, portanto, livrar-se da infância como de um mal. O fato de todo homem ter sido antes necessariamente criança é que constitui a causa de seus erros. A criança não só é desprovida de discernimento, não só é dirigida pelas sensações, como, além disso, é banhada pela atmosfera fétida das falsas opiniões. (...) A desgraça é que as opiniões adquiridas na infância são as que marcam mais profundamente o homem. Ghiraldelli discute dois outros aspectos referentes à criança e à infância ligados à idéia de natureza infantil. Um desses aspectos está relacionado ao pensamento de Rousseau que vê a infância como uma época de pureza, inocência e acolhimento da verdade. O segundo aspecto é a concepção de Nabokov que, ao contrário de Rosseau, não vê bondade, nem menos pureza e inocência nesse período da vida, e sim maldade. Badinter mostra que a imagem funesta que alguns iluministas tinham sobre a criança não atingia todos os níveis sociais. Para a autora, “(...) a criança é considerada mais como um estorvo, ou mesmo como uma desgraça, do que como o mal ou pecado”. A autora mostra que, para muitos pais, os filhos eram obstáculos que atrapalhavam sua vida social, emocional, conjugal e económica. Nas famílias menos abastadas o factor que mais influenciava era o económico. Este é um dos motivos pelos quais muitas crianças foram abandonadas num orfanato, entregues a uma ama-de-leite, ou sofreram de infanticídio. “O filho chega a ser uma ameaça à própria sobrevivência dos pais. Não lhes resta, portanto, outra escolha senão livrarem-se dele”. No século XVII, na Europa, constata-se que, enquanto bebê, caso a criança não passasse pelas situações descritas acima, elas eram abandonadas ou mortas, no decorrer da segunda para a terceira fase da infância (dos 4 aos 7 anos de idade). Essas crianças eram isoladas do mundo adulto, nos conventos e internatos. “ Era no convento que a moça esperava o marido ” que pudesse retirá-la deste lugar e os meninos para os colégios internatos. A escola substitui, então, a aprendizagem familiar e passa a funcionar como um processo de enclausuramento da criança. Essa discussão é interessante porque possibilita a percepção em relação às mudanças históricas em torno da infância. Enquanto na Idade Média, as crianças aprendiam tudo através das relações diárias com os mais velhos, no princípio da Idade Moderna começa a existir uma segregação dessa criança havendo, inclusive ambientes diferentes, ou seja, aqueles destinados aos adultos e outros às crianças. Essa concepção da Idade Moderna remete a questão que, para se ter uma boa educação, as crianças precisavam afastar-se do convívio social do qual não pertenciam, o mundo dos adultos. Com base em Ariés , verifica-se que, no período medieval, na maioria das famílias, as casas eram verdadeiros centros de crianças. A família era extensa, formada muitas vezes por tios, tias, avós ou primos, todos vivendo sobre o mesmo teto. A economia era baseada na agricultura onde todos trabalhavam juntos para um bem-comum. Depois da Revolução Industrial , na Idade Moderna, as famílias tinham cada vez menos filhos, tornando-se menores e mais móveis e constituindo o modelo familiar do padrão moderno . Antes da Revolução Industrial, a família era enraizada no solo, depois dela, a produção económica deslocou-se do campo para fábrica, que ficava na zona urbana. Diante dessa nova realidade as crianças também deveriam ser preparadas para a vida fabril localizada na cidade. A partir do século XVIII, a educação dos filhos era entregue as escolas. Um meio encontrado para poupar o tempo dos pais, que agora vendem sua força de trabalho para os donos das indústrias. “ As mulheres que trabalhavam em fábricas colocavam os filhos em casa de amas durante o dia, mas iam buscá-lo á noite, ao que parece” . Portanto, a industrialização justifica a criação de instituições de cuidado, guarda e abrigo para acolher filhos de mulheres trabalhadoras. Com o advento da Revolução Industrial, que trouxe consigo máquinas e o processo de industrialização, a família perdeu uma de suas funções e, através de muitas reivindicações, a escola se estendeu a todas as camadas sociais, com a missão de educar para o trabalho as crianças, impondo sobre elas uma mentalidade de obediência e disciplina. Nas fábricas, além da inserção do trabalho da mulher constata-se a presença de crianças que representava mãos-de-obra baratas, disciplinadas e com baixo poder reivindicatório. Nos tempos modernos, a escola torna-se uma instituição de fato enquanto espaço reservado à protecção das crianças. “O grande acontecimento foi, portanto o reaparecimento nos tempos modernos da preocupação com a educação”. As actividades de trabalho infantil, que sempre estiveram presentes na sociedade européia, sejam elas domésticas ou agrícolas, continuaram acontecendo depois da Revolução Industrial, mas a escola acabou escondendo-o essa prática pelas crianças. Essas mudanças na concepção de infância, escola e família estavam relacionadas a uma cristianização profunda dos costumes e dos valores dando inicio ao processo de construção do indivíduo moderno. Como nos relata Gélis: Num clima de crescente individualismo, disposto a favorecer o desenvolvimento da criança e encorajado pela Igreja e pelo Estado, o casal [pai e mãe] delegou uma parte de seus poderes e de suas responsabilidades ao educador. Ao modelo rural sucedeu um modelo urbano, o desejo de ter filho não para assegurar a continuidade do ciclo, mas simplesmente para amá-los e ser amado por eles. Nos oitocentos, o conceito de criança como um ser singular e particular está mais firme. Segundo Del Priore, “(...) já nas primeiras décadas do século XIX, que os dicionários assumiram o uso reservado da palavra ‘criança’ para a espécie humana”. Assim, as crianças tornam-se o centro das atenções e passam a serem tema e possibilidades de estudos e observações. Desta forma, e aos poucos, começando pela Europa, a criança vai assumindo identidade, voz e estatuto legal. De acordo com Del Priore surge a partir de então, também a preocupação com a higiene e a saúde da criança. No Brasil, verifica-se esta inquietação acerca dessas atitudes, após a chegada da corte portuguesa ao país em 1808. O maior cuidado com a higiene fez com que as crianças tivessem maior chance de sobreviver. Consequentemente, sua morte passa a ser vivida como um drama. “ Essa vontade de salvar a criança só aumenta ao longo do século XVII....”. A família moderna, então, preocupada com o futuro dos seus filhos, tentará limitar sua fecundidade. Essa mudança também pôde ser percebida na inclusão de trajes próprios às crianças, assim como ciências e personagens aparecem no universo infantil, dentre eles, a psicologia, pediatria, pedagogo, professor, assistente social, juiz de menores, tornando, dessa forma, a infância uma categoria particular. Essa nova percepção em relação à criança, considerando sua individualidade, “ ocorre simultaneamente às mudanças culturais associadas à emergência de uma vida urbana mais intensa” na Europa. De acordo com Badinter, ocorre uma progressiva valorização do lugar ocupado pela criança tornando o filho, no decorrer do século XIX, o centro da família. Ele passa a ser objecto de investimentos económicos, educacionais e afectivos. “Tudo o que se referia às crianças e a família tornara um assunto sério e digno de atenção. Não apenas o futuro da criança, mas também sua simples presença e existência eram dignas de preocupação”. A partir do século XIX, o Estado quis melhorar a vivência da criança. Para fundamentar essa idéia, apontamos Badinter: No século XIX, o Estado, que se interessa cada vez mais pela criança, vítima, delinquente ou simplesmente carente, adquire o habito de vigiar o pai. A cada carência paterna devidamente contactada, o Estado se propõe substituir o faltoso, criando novas instituições. (...) É verdade, não obstante, que a política de assumir e proteger a infância traduziu-se não apenas numa vigilância cada vez mais estreita da família, mas também na substituição do patriarcado familiar por um “ patriarcado de Estado.” Então, para a nova sociedade que surgia impulsionada pelo capitalismo industrial e o liberalismo imbuído de suas consequências proporcionaram a ocorrência de transformações que influenciaram a vida das crianças. “A infância passa, então, a se situar numa nova efectividade social enquanto consumidor” . O mesmo aconteceu em relação ao desenvolvimento tecnológico, mas nítido a partir do século XX, colocando a infância ligada ao económico. Utilizando a criança como um incremento no trabalho infantil, na publicidade, ou ainda, no consumo. Nesse novo contexto social, político, económico, enfim, todas as dimensões em que se insere o homem, surgem um variado mercado de produtos para a infância como programas de televisão, desenhos animados, jogos, roupas, alimentos, brinquedos e outros. Embora tenham surgido leis desde XIX na Europa para a protecção da criança, até hoje nem todas elas têm seus direitos assegurados. Em 1959, foi proclamada a Declaração Universal dos Direitos da Criança , sendo que o Princípio 1 reza: Todas as crianças, absolutamente sem qualquer excepção, será credoras destes direitos, sem distinção ou discriminação por motivo de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento ou qualquer outra condição, quer sua ou de sua família. E mais recentemente, como fruto da constituição brasileira de 1988 foi criado o Estatuto da Criança e do Adolescente quando pela primeira vez no Brasil, a criança é considerada um sujeito de direito. Direitos esses que, muitas vezes não são respeitados conforme se constata a todo o momento na mídia. Diante dessa discussão também não se pode esquecer que existem muitas infâncias dentro da infância global. Verifica-se que, nem todas as crianças vivem a infância da mesma forma em relação às condições sociais, culturais e econômicas. As contradições e desigualdades constituem o “ outro lado da condição social da infância contemporânea”. Na sociedade globalizada, as crianças são vítimas da fome, inúmeras doenças, maus-tratos, abusos psicológicos, pedofilia, pobreza, exclusão, tráfico para prostituição infantil ou pornografias. Enfim, através deste pequeno recorte histórico percebe-se que a infância e a criança foram sendo construídas e pensadas pelos homens de acordo com as necessidades sociais de cada momento histórico. Portanto, a infância é uma construção cultural da sociedade que está sujeita as mudanças sempre que ocorrem importantes transformações sociais. Rompendo com a idéia de natureza infantil, a criança e a infância começam a ser enxergadas como categorias históricas e culturais ligadas ao contexto histórico-social em que se inserem e participando activamente na construção de sua própria história. Actualmente, a criança parece se situar como um sujeito que detêm seu espaço na sociedade, um indivíduo exigente, questionador, possuidor de mercado consumidor, leis, programas televisivos e ciências dedicadas a elas. Mas, a idéia de infância é extremamente moderna. Num percurso histórico, percebe-se que o conceito de infância vem sofrendo modificações. As crianças estão ausentes na história no período que compreende a Antiguidade até a Idade Média por não existir este objecto discursivo que chamamos ‘infância’, nem esta figura social e cultural ‘criança’. O historiador Áries complementa: (...) o sentimento da infância não existia - o que não quer dizer que as crianças fossem negligenciadas, abandonadas ou desprezadas. O sentimento da infância não significa o mesmo que afeição pelas crianças: corresponde à consciência da particularidade infantil, essa particularidade que distingue essencialmente a criança do adulto, mesmo jovem. Essa consciência não existia. De acordo com Áries, as crianças eram vistas nos séculos XIV, XV e XVI como um adulto em miniatura. O tratamento social dispensado a criança era igual ao de adultos, ou seja, sinônimos. Ser criança era um período breve da vida, pois logo se misturavam aos mais velhos. Elas participavam de todos os assuntos da sociedade, adquiriam o conhecimento pela convivência social. Adultos, jovens e crianças se misturavam em toda actividade social, ou seja, nos divertimentos, no exercício das profissões e tarefas diárias, no domínio das armas, nas festas, cultos e rituais. O cerimonial dessas celebrações não fazia muita questão em distinguir claramente as crianças dos jovens e estes dos adultos. Até porque esses grupos sociais estavam pouco claro em suas diferenciações. Nesse aspecto, o serviço doméstico se confundia com a aprendizagem consistindo em uma forma de educação da criança. A passagem pela família era rápida e insignificante. Geralmente, a partir dos sete anos, as crianças iriam viver com outra família para serem educadas. Pelos estudos de Áries, percebe-se que não havia uma educação letrada. As crianças eram entregues às famílias, muitas vezes desconhecidas ou vizinhos, para prestarem serviços domésticos ou aprenderem algum ofício. Essas aprendizagens tinham alguns intuitos. Segundo Gélis: As aprendizagens da infância e da adolescência deviam, pois, ao mesmo tempo fortalecer o corpo, aguçar os sentidos, habitar o indivíduo a superar os revezes da sorte e principalmente a transmitir também a vida, a fim de assegurar a continuidade da família. Conforme Áries, os pequenos entravam logo no mundo adulto e não dependiam tanto dos pais. Esses sim dependiam deles, pois quanto mais filhos, mais braços teriam para trabalhar. Devido à situação de fome, miséria, tragédia e a falta de saneamento básico pelas quais as pessoas da Idade Média viviam, a taxa de mortalidade infantil era muito alta. A morte de uma criança não era recebida com tanto sentimento e desespero como acontece hoje. Rapidamente a tristeza passava, e aquela criança era substituída por outro recém-nascido para cumprir sua função já pré-estabelecida. Constata-se que a mortalidade infantil na Europa medieval, mesmo entre ricos e pobres, mostra o relativo descaso pelas crianças. Verifica-se também que nas famílias pobres havia uma preocupação desde cedo para a criança trabalhar nas lavouras ou serviços domésticos. “A primeira infância era época das aprendizagens”. Aquelas que pertenciam às famílias nobres aprendiam as artes de guerra ou os ofícios eclesiásticos. Essa realidade comprovava que não havia muito tempo por parte dos pais para dar carinho e dedicação a elas. A inquietação para ensiná-las um ofício e a atenção dos pais nos seus trabalhos, na guerra ou pedindo esmolas proporcionava tal situação. De acordo com estudos do período e de Badinter, o amor dos pais aos filhos era selectivo. Com a regra de primogenitura, o filho mais velho teria direito de ser o único herdeiro após a morte do pai. Excluía dessa maneira os demais filhos. Os pais sempre preferiam ter filhos do sexo masculino ao invés do feminino. Não viam vantagens financeiras em ter uma filha, mas sim, preocupações, exemplo disso é o dote. Nota-se, que apesar da idéia de criança e infância ter se transformado em nossos dias, muitas concepções descritas acima referentes ao período de transição medieval para a moderna permanecem presentes, ainda que de forma disfarçada em algumas crenças e práticas de nosso tempo. É só a partir do século XVI que mudanças de concepções referentes à criança e a infância são notadas. Do século XVI para o XVII, na Europa, começam a perceber a criança como um ser diferente do adulto. Surge um sentimento de infância. Sentimento esse um pouco distorcido, uma vez que as crianças eram vistas como objecto lúdico dos adultos. “ Um sentimento que poderíamos chamar de ‘paparicação’” Nesse momento que a infância estava começando a ser descoberta na Europa como uma idade específica da vida, como nos lembra Áries, pois inexistia o sentimento de infância antes da Idade Moderna, constituía a época em que estava ocorrendo à colonização do Brasil. Dessa forma, os europeus, enquanto colonizadores trouxeram seus valores, costumes, e naturalmente suas idéias referentes à infância para o Brasil. Assim, dentro dessa nova construção moderna, foram sendo soterradas concepções de criança como um adulto anão e paulatinamente foi cedendo lugar para a afirmação da infância como uma construção social. Inserido nesse aspecto de práticas que vieram para a colônia com os colonizadores, Del Priore retrata o sentimento de paparicação na época colonial brasileira dizendo: (...) crianças pequenas, brancas ou negras, passavam de colo em colo e eram mimadas à vontade, tratadas como pequenos brinquedos. (...) As pequenas crianças negras eram consideradas graciosas e serviam de distracção para as mulheres brancas que viviam reclusas, em uma vida monótona. Eram como que brinquedos, elas as agradavam, riam de suas cambalhotas e brincadeiras, lhes davam doces e biscoitos... Aos poucos vai solidificando a noção de infância, e o Iluminismo na Europa inaugura a preocupação com essa questão por meio de estudos e pesquisas. Nesta direcção, era preciso formar o “novo homem”. Para Ghiraldelli a escola entra não só com o papel fundamental de simplesmente educá-las, mas libertá-las da ignorância e do caminho do mal. Esta idéia advinha do Iluminismo. Os adeptos dessa corrente de pensamento acreditavam que a razão humana deve dominar acima de tudo e de todos. Entretanto, as instituições educativas seriam responsáveis por desenvolver o potencial destes preparando-as para a vida e o trabalho. Além do que, lançavam olhares sobre a criança como um animalzinho de estimação, um ser irracional, que vivia de acordo com os pensamentos e desejos dos outros. Não conseguiam perceber nelas a capacidade de pensar, querer e sentir. Percebe, porém, que a educação escolar não era entendida da mesma forma e aplicada com a mesma qualidade para todas as camadas sociais durante o período moderno. Os filhos dos burgueses eram preparados para ocupar os altos cargos. Os filhos de famílias pobres muitas vezes não chegavam a ir para escola, e quando a frequentavam eram treinados para os trabalhos secundários como de carpinteiros, pedreiros ou agrícolas. Segundo Ariès, as classes populares européias continuaram tendo por muito tempo, a idéia de uma infância curta e fundida com os adultos. Del Priore mostra que, no Brasil colonial a partir dos sete anos, os filhos de senhores iam estudar e dos pobres e escravos trabalhar. Segundo as teorias religiosas, as crianças nasciam do pecado e eram símbolos da força do mal. Ghiraldelli afirma que essa idéia foi difundida desde Santo Agostinho. “ Como se sabe, Santo Agostinho viu a criança imersa no pecado, na medida em que, não possuindo linguagem (“infante”: o que não fala – portanto, aquele que não possui logos), mostrar-se-ia desprovida de razão,...” Os intelectuais e pensadores da modernidade adeptos desse pensamento acreditavam que a escola tinha o objectivo de corrigir as crianças que viviam em constante estado de pecado, ou seja, gulosas, preguiçosas, indóceis, desobedientes, briguentas e faladoras. Nessa perspectiva, as crianças eram vistas como um material a ser moldado. Era como se a infância fosse uma coisa tenebrosaque precisava ser apagada. Badinter explana as idéias desses pensadores: É preciso, portanto, livrar-se da infância como de um mal. O fato de todo homem ter sido antes necessariamente criança é que constitui a causa de seus erros. A criança não só é desprovida de discernimento, não só é dirigida pelas sensações, como, além disso, é banhada pela atmosfera fétida das falsas opiniões. (...) A desgraça é que as opiniões adquiridas na infância são as que marcam mais profundamente o homem. Ghiraldelli discute dois outros aspectos referentes à criança e à infância ligados à idéia de natureza infantil. Um desses aspectos está relacionado ao pensamento de Rousseau que vê a infância como uma época de pureza, inocência e acolhimento da verdade. O segundo aspecto é a concepção de Nabokov que, ao contrário de Rosseau, não vê bondade, nem menos pureza e inocência nesse período da vida, e sim maldade. Badinter mostra que a imagem funesta que alguns iluministas tinham sobre a criança não atingia todos os níveis sociais. Para a autora, “(...) a criança é considerada mais como um estorvo, ou mesmo como uma desgraça, do que como o mal ou pecado”. A autora mostra que, para muitos pais, os filhos eram obstáculos que atrapalhavam sua vida social, emocional, conjugal e económica. Nas famílias menos abastadas o factor que mais influenciava era o económico. Este é um dos motivos pelos quais muitas crianças foram abandonadas num orfanato, entregues a uma ama-de-leite, ou sofreram de infanticídio. “O filho chega a ser uma ameaça à própria sobrevivência dos pais. Não lhes resta, portanto, outra escolha senão livrarem-se dele”. No século XVII, na Europa, constata-se que, enquanto bebê, caso a criança não passasse pelas situações descritas acima, elas eram abandonadas ou mortas, no decorrer da segunda para a terceira fase da infância (dos 4 aos 7 anos de idade). Essas crianças eram isoladas do mundo adulto, nos conventos e internatos. “ Era no convento que a moça esperava o marido ” que pudesse retirá-la deste lugar e os meninos para os colégios internatos. A escola substitui, então, a aprendizagem familiar e passa a funcionar como um processo de enclausuramento da criança. Essa discussão é interessante porque possibilita a percepção em relação às mudanças históricas em torno da infância. Enquanto na Idade Média, as crianças aprendiam tudo através das relações diárias com os mais velhos, no princípio da Idade Moderna começa a existir uma segregação dessa criança havendo, inclusive ambientes diferentes, ou seja, aqueles destinados aos adultos e outros às crianças. Essa concepção da Idade Moderna remete a questão que, para se ter uma boa educação, as crianças precisavam afastar-se do convívio social do qual não pertenciam, o mundo dos adultos. Com base em Ariés , verifica-se que, no período medieval, na maioria das famílias, as casas eram verdadeiros centros de crianças. A família era extensa, formada muitas vezes por tios, tias, avós ou primos, todos vivendo sobre o mesmo teto. A economia era baseada na agricultura onde todos trabalhavam juntos para um bem-comum. Depois da Revolução Industrial , na Idade Moderna, as famílias tinham cada vez menos filhos, tornando-se menores e mais móveis e constituindo o modelo familiar do padrão moderno . Antes da Revolução Industrial, a família era enraizada no solo, depois dela, a produção económica deslocou-se do campo para fábrica, que ficava na zona urbana. Diante dessa nova realidade as crianças também deveriam ser preparadas para a vida fabril localizada na cidade. A partir do século XVIII, a educação dos filhos era entregue as escolas. Um meio encontrado para poupar o tempo dos pais, que agora vendem sua força de trabalho para os donos das indústrias. “ As mulheres que trabalhavam em fábricas colocavam os filhos em casa de amas durante o dia, mas iam buscá-lo á noite, ao que parece” . Portanto, a industrialização justifica a criação de instituições de cuidado, guarda e abrigo para acolher filhos de mulheres trabalhadoras. Com o advento da Revolução Industrial, que trouxe consigo máquinas e o processo de industrialização, a família perdeu uma de suas funções e, através de muitas reivindicações, a escola se estendeu a todas as camadas sociais, com a missão de educar para o trabalho as crianças, impondo sobre elas uma mentalidade de obediência e disciplina. Nas fábricas, além da inserção do trabalho da mulher constata-se a presença de crianças que representava mãos-de-obra baratas, disciplinadas e com baixo poder reivindicatório. Nos tempos modernos, a escola torna-se uma instituição de fato enquanto espaço reservado à protecção das crianças. “O grande acontecimento foi, portanto o reaparecimento nos tempos modernos da preocupação com a educação”. As actividades de trabalho infantil, que sempre estiveram presentes na sociedade européia, sejam elas domésticas ou agrícolas, continuaram acontecendo depois da Revolução Industrial, mas a escola acabou escondendo-o essa prática pelas crianças. Essas mudanças na concepção de infância, escola e família estavam relacionadas a uma cristianização profunda dos costumes e dos valores dando inicio ao processo de construção do indivíduo moderno. Como nos relata Gélis: Num clima de crescente individualismo, disposto a favorecer o desenvolvimento da criança e encorajado pela Igreja e pelo Estado, o casal [pai e mãe] delegou uma parte de seus poderes e de suas responsabilidades ao educador. Ao modelo rural sucedeu um modelo urbano, o desejo de ter filho não para assegurar a continuidade do ciclo, mas simplesmente para amá-los e ser amado por eles. Nos oitocentos, o conceito de criança como um ser singular e particular está mais firme. Segundo Del Priore, “(...) já nas primeiras décadas do século XIX, que os dicionários assumiram o uso reservado da palavra ‘criança’ para a espécie humana”. Assim, as crianças tornam-se o centro das atenções e passam a serem tema e possibilidades de estudos e observações. Desta forma, e aos poucos, começando pela Europa, a criança vai assumindo identidade, voz e estatuto legal. De acordo com Del Priore surge a partir de então, também a preocupação com a higiene e a saúde da criança. No Brasil, verifica-se esta inquietação acerca dessas atitudes, após a chegada da corte portuguesa ao país em 1808. O maior cuidado com a higiene fez com que as crianças tivessem maior chance de sobreviver. Consequentemente, sua morte passa a ser vivida como um drama. “ Essa vontade de salvar a criança só aumenta ao longo do século XVII....”. A família moderna, então, preocupada com o futuro dos seus filhos, tentará limitar sua fecundidade. Essa mudança também pôde ser percebida na inclusão de trajes próprios às crianças, assim como ciências e personagens aparecem no universo infantil, dentre eles, a psicologia, pediatria, pedagogo, professor, assistente social, juiz de menores, tornando, dessa forma, a infância uma categoria particular. Essa nova percepção em relação à criança, considerando sua individualidade, “ ocorre simultaneamente às mudanças culturais associadas à emergência de uma vida urbana mais intensa” na Europa. De acordo com Badinter, ocorre uma progressiva valorização do lugar ocupado pela criança tornando o filho, no decorrer do século XIX, o centro da família. Ele passa a ser objecto de investimentos económicos, educacionais e afectivos. “Tudo o que se referia às crianças e a família tornara um assunto sério e digno de atenção. Não apenas o futuro da criança, mas também sua simples presença e existência eram dignas de preocupação”. A partir do século XIX, o Estado quis melhorar a vivência da criança. Para fundamentar essa idéia, apontamos Badinter: No século XIX, o Estado, que se interessa cada vez mais pela criança, vítima, delinquente ou simplesmente carente, adquire o habito de vigiar o pai. A cada carência paterna devidamente contactada, o Estado se propõe substituir o faltoso, criando novas instituições. (...) É verdade, não obstante, que a política de assumir e proteger a infância traduziu-se não apenas numa vigilância cada vez mais estreita da família, mas também na substituição do patriarcado familiar por um “ patriarcado de Estado.” Então, para a nova sociedade que surgia impulsionada pelo capitalismo industrial e o liberalismo imbuído de suas consequências proporcionaram a ocorrência de transformações que influenciaram a vida das crianças. “A infância passa, então, a se situar numa nova efectividade social enquanto consumidor” . O mesmo aconteceu em relação ao desenvolvimento tecnológico, mas nítido a partir do século XX, colocando a infância ligada ao económico. Utilizando a criança como um incremento no trabalho infantil, na publicidade, ou ainda, no consumo. Nesse novo contexto social, político, económico, enfim, todas as dimensões em que se insere o homem, surgem um variado mercado de produtos para a infância como programas de televisão, desenhos animados, jogos, roupas, alimentos, brinquedos e outros. Embora tenham surgido leis desde XIX na Europa para a protecção da criança, até hoje nem todas elas têm seus direitos assegurados. Em 1959, foi proclamada a Declaração Universal dos Direitos da Criança , sendo que o Princípio 1 reza: Todas as crianças, absolutamente sem qualquer excepção, será credoras destes direitos, sem distinção ou discriminação por motivo de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento ou qualquer outra condição, quer sua ou de sua família. E mais recentemente, como fruto da constituição brasileira de 1988 foi criado o Estatuto da Criança e do Adolescente quando pela primeira vez no Brasil, a criança é considerada um sujeito de direito. Direitos esses que, muitas vezes não são respeitados conforme se constata a todo o momento na mídia. Diante dessa discussão também não se pode esquecer que existem muitas infâncias dentro da infância global. Verifica-se que, nem todas as crianças vivem a infância da mesma forma em relação às condições sociais, culturais e econômicas. As contradições e desigualdades constituem o “ outro lado da condição social da infância contemporânea”. Na sociedade globalizada, as crianças são vítimas da fome, inúmeras doenças, maus-tratos, abusos psicológicos, pedofilia, pobreza, exclusão, tráfico para prostituição infantil ou pornografias. Enfim, através deste pequeno recorte histórico percebe-se que a infância e a criança foram sendo construídas e pensadas pelos homens de acordo com as necessidades sociais de cada momento histórico. Portanto, a infância é uma construção cultural da sociedade que está sujeita as mudanças sempre que ocorrem importantes transformações sociais. Rompendo com a idéia de natureza infantil, a criança e a infância começam a ser enxergadas como categorias históricas e culturais ligadas ao contexto histórico-social em que se inserem e participando activamente na construção de sua própria história.

quinta-feira, 29 de março de 2012

HISTORIA DA BICICLETA


HISTORIA DA BICICLETA

invenção da bicicleta como meio de locomoção é algo muito difícil de precisar no tempo. Vários autores defendem que a bicicleta surgiu pela mão do conde francês Mede de Sivrac, outros consideram que a sua criação é posterior àquela data.

No entanto existem registos de que os antigos egípcios já conheciam aquele meio de locomoção, ou pelo menos já idealizavam nos seus hieróglifos a figura de um veículo de duas rodas com uma barra sobreposta.

Depois deste acontecimento sucessivas modificações técnicas foram introduzidas na bicicleta, tais como as mudanças e a roda livre.

Hoje em dia, foram feitos novos aperfeiçoamentos nas bicicletas no sentido de aperfeiçoar cada tipo de bicicleta, tornando-as cada vez mais eficazes para os desportos de competição ou mais confortáveis para o lazer.

Com este trabalho pretendo apresentar uma breve história da evolução da bicicleta desde o seu aparecimento até aos nossos dias.

Faço ainda uma alusão aos diversos tipos de bicicletas que existem actualmente e quais as suas funções.

A História da bicicleta

1490

Em 1966, monges italianos, no restauro de manuscritos de Leonardo da Vinci, descobriram também desenhos datados de 1490, em que se podia distinguir uma máquina muito semelhante às modernas bicicletas, dotada inclusivamente de pedais e tracção por corrente.

 1580
Em 1850, na janela de uma igreja de Buckinghamshire, Inglaterra, há o desenho de uma pessoa sentada num instrumento de rodas e que usava os pés para impulsioná-lo. Não se sabe porém, se trata de mera imaginação do artista ou da reprodução de um veículo de facto existente na época.

1761

Muitas tentativas engenhosas foram testadas nos séculos XV e XVI, tendo sido desenvolvidos pesados e complicados veículos de duas e quatro rodas, accionados por mecanismos compostos de correntes, alavancas e outos dispositivos.

Num museu alemão existe um modelo chamado bicicleta de Kassler que data de 1761, no entanto a sua verdadeira origem é ainda conhecida, dado que os franceses afirmam que este modelo foi exportado de França.


1790
Em 1790, o conde francês Sivrac inventou uma máquina a que deu o nome de Celerífero (“Célerefère”) e que alguns historiadores consideram o antepassado mais antigo da bicicleta moderna. Muito simples, consistia num corpo de madeira. Não tinha movimento de direcção, já que a roda dianteira era fixa, nem pedais, o que obrigava o utilizador a empurrá-la com os pés, ou seja, “caminhava” sentado sobre ela.



1816

O próximo passo no processo de evolução da bicicleta ocorreu em 1816, pela mão do barão alemão Karl Friederich Cheistian Ludwing Von Drais que adaptou uma direcção ao Celerífero. Junto com o primeiro guiador, apareceu a “Draisiana”, bicicleta que Von Drais usou para percorrer o trajecto ente Beaun e Dijon, na França, à velocidade média de 15km/h, primeiro “recorde ciclístico”. Drais (1785-1851), inspector florestal e inventor nas horas vagas, foi o primeiro a construir um biciclo dirigível, que ficou conhecido como draisiana



1818

A 5 de Abril, o barão Drais apresenta o seu invento no Parque de Luxemburgo, em Paris, e meses mais tarde fez o treajecto Beaum-Dijon na velocidade média de 15km/h, primeiro “recorde ciclístico”.

1820

Em 1820 foi dado o grande passo da história ciclística: o escocês Kikpatrick McMillan (1810-1878) adapta ao eixo traseiro duas bielas, ligadas por barras de ferro. Estas duas barras tinham a função de um pistão, eram accionadas pelos pés, o que provoca o avanço da roda traseira.

1839

Em 1839, o mesmo escocês Kirkpatrick Mac Millan, um humilde ferreiro do interior, fez o que Drais tinha testado sem sucesso: criou pedais que, ligados por barras de ferro ao eixo da roda traseira, movimentavam o velocípede. Foram quatro anos de árduas experiências. Mac Millan percorria com ele o caminho de 22km entre seu povoado, Courthill, e a capital do condado, Dumfries. Sem vocação para negócios, Mac Millan não sabia ao certo o que fazer com o veículo, que logo foi esquecido.
 

1840

O escocês Kirkpatrick Mac Millan adapta duas bielas ao eixo da roda traseira, que serviam como pedais. No entanto, havia desconforto na pedalada e dificuldade de equilíbrio.

O primeiro pedal, no entanto, surgiu em 1855, inventado pelo francês Ernest Michaux, que o instalou num veículo de duas rodas traseiras e uma dianteira; os pedais eram ligados à roda dianteira e o invento ficou conhecido como “Velocípede”.



1861

Em 1861, o francês Pierre Michaux (1813-1883) construiu outra bicicleta com pedais, mas agora adaptados à roda da frente.

Pierre e seu filho Ernest fundaram, com sucesso a primeira fábrica de bicicletas do mundo. A sua máquina, apesar da estrutura de ferro e madeira lhe ter valido a alcunha de “Chucalha-ossos”, rapidamente conquistou grandes entusiastas. Num ano, Pierre e Ernest Michaux produziram 142 máquinas.

1865

Nesta altura já se fabricavam cerca de 400 por ano. Ernest Michaux inventou o primeiro pedal com a ajuda do seu filho, Pierre Michaux, de apenas 14 anos de idade. Esse pedal foi aplicado primeiro num velocípede de duas rodas traseiras e uma dianteira, cujo inconveniente era o seu excessivo peso de 45 kg.

Só seis anos mais tarde os mesmos pedais foram aplicados a um velocípede com apenas duas rodas.

Nasce a primeira fábrica de bicicletas do mundo, a Companhia Michaux, com 200 operários, que fabricavam cerca de 140 bicicletas por ano. Cada uma era vendida, na época por um preço exorbitante de 450 francos.

Toda a Europa multiplica esforços para aperfeiçoar a bicicleta e os aperfeiçoamentos começam a ser usados com todo o equipamento de campismo e a ser levados para excursões longas nas estradas da Europa, surgindo o cicloturismo.


1862

O crescente número de entusiastas, destes veículos “obrigou” as autoridades de Paris, a criar, por volta de 1862, caminhos especiais para os velocípedes nos parques. O objectivo era evitar que se misturassem com charretes e carroças.

Surgiram, assim, as primeiras ciclovias, no mesmo ano em que é divulgada a primeira estatística: Ernest Michaux consegue fabricar 142 unidades em 12 meses.

1868

1ª Prova masculina com bíciclos, vencida pelo inglês James Moore, Parque Saint Cloud Paris.

1ª Prova Feminina, ocorrida no parque Bordelais, em Paris no dia 1 de Novembro

1877

Roseau apresenta um dispositivo que por meio de duas correntes multiplicava o giro da roda dianteira. Além deste muitas alterações foram feitas, nomeadamente pela colocação de travãoes e de tiras de borracha coladas aos aros das rodas, inventando por Robert Thompson.



1880

Nesta altuta Starley e o seu sobrinho, inventaram a bicicleta que assumiu as características que hoje conhecemos. Foram introduzidos os pedais no centro a tracção passou para a roda dianteira, através de uma corrente de transmissão.

1887

James Boyd Dunlop, inventa o pneu que vem trazer aos novos veículos um maior conforto e resistência. Este mecanismo consistia na colocação de um rolo de pano engomado cheio de ar. No entanto esta invenção tinha o inconveniente da manutenção.

1891

Os franceses Edouard e André Michelin lançam o pneu desmontável, que vem resolver o problema das rodas de ferro e madeira. Em resposta aos avanços de Dunlop, os irmãos Michelin inventaram um pneu de mais fácil manutenção, que enchia através de uma válvula e ainda permitia a sua remoção e substituição em caso de dano.
1895

No dia 9 de Outubro toda a cidade de Milão aplaude a chegada de Raffaelle Gatti, que retorna do “Tour do Círculo Polar Ártico”.

Depois deste acontecimento sucessivas modificações técnicas foram introduzidas na bicicleta, tais como as mudanças e a roda livre.

A roda livre foi criada para oferecer maior conforto ao ciclista. Este dispositivo permitia interromper a pedalada especialmente em descidas, em trajectos com vento a favor e em alguns momentos de calma na corrida.
As mudanças permitem o aproveitamento de várias engrenagens e com isso imprimir maiores velocidades. É a última invenção que aperfeiçoou tecnicamente a bicicleta.

Desta forma, até aos nossos dias, a bicicleta tem vindo a ser aperfeiçoada, em relação aos materiais utilizados, aos vários tipos relacionados com as modalidades, etc.

Ciclismo

Foi Inglaterra, o primeiro país que promoveu uma regulação ciclística, criando o “Bicicle Union”. Na Itália, a legislação sobre o ciclismo surgiu 5 anos mais tarde, com a criação da União Velocipédica Italiana.


Em 1892 na Europa foi constituída a Internacional Cyclist Association que teve sua sede em Londres, agrupando as Federações Nacionais dos Estados Unidos, Bélgica, França, Canadá, Alemanha, Holanda, Inglaterra e Itália. Um dos primeiros actos da ICA foi a criação dos primeiros campeonatos do Mundo, substituindo as provas até então promovidas por entidades particulares.

Porém, somente em 1886, graças a alguns ingleses, foram organizados os primeiros campeonatos mundiais, com boa consistência e organização mais séria, na cidade de Leicester. Em 1893 devido a uma polémica com os órgãos italianos, nasce a actual UCI, União Ciclística Internacional.

Tipos de Bicicletas

Nos nossos dias, os novos aperfeiçoamentos nas bicicletas ocorrem no sentido de melhorar cada tipo de bicicleta, tornando-as cada vez mais eficazes para os desportos de competição ou mais confortáveis para o lazer. Hoje existem bicicletas específicas para cada desporto ciclístico, e dentro de cada desporto, especificas para as necessidades de cada utilizador, tamanha foi a evolução ao longo dos anos.

Assim temos os seguintes tipos de bicicletas:

Ciclismo de estrada

Com estruturas muito leves, com quadros e acessórios muito aerodinâmicos de diversos tipos de materiais, rodas grandes e pneus finos. Em competição podem trocar-se determinados acessórios, como o tipo de roda, para favorecer uma boa aerodinâmica.

BTT ou Bicicleta de Todo-o-terreno

As bicicletas de montanha são muito diferentes das restantes bicicletas: são bicicletas especificamente concebidas para uma utilização fora-de-estrada, adaptadas à rodagem em todo o tipo de pisos, dispondo, para isso, de características técnicas específicas. Normalmente, uma boa bicicleta B.T.T. é constituída por um duplo triângulo fabricado em materiais diversos, como o cromolibdénio – uma liga de aço-, o alumínio, o titânio ou o carbono. Há igualmente travões de vários tipos: cantilver, V-brake, hidráulicos ou de disco. As B.T.T. podem ter uma suspensão dianteira e traseira, pneus Kevlar, 21 ou 24 mudanças e pedais de encaixe automático, os SPD. Os pneus são largos, rodas de 26 polegadas com rastos grossos para agarrar melhor no terreno irregular, sistema de transmissão que permite uma melhor performance em subidas ou descidas. Esta é uma bicicleta mais pesada devido a uma maior necessidade de resistência do material: tal como o nome indica, esta bicicleta está preparada para superar qualquer tipo de terreno.


Bicicleta de montanha

A prática desta modalidade teve o seu início há cerca de 20 anos, nas regiões montanhosas do Estado da Califórnia (Estados Unidos). No entanto a sua origem remonta ao ano de 1933, quando Ignaz Schwinn construiu uma bicicleta a que deu o nome de Scwinn Excelsior. Durante a década de 70, quando proliferavam a bicicletas BMX (bicicletas de Cross utilizadas pelos adolescentes) e se organizavam provas de descida, foram redescobertas as Schwinn Excelsior.

Estas bicicletas demonstram possuir a características ideais para a realização de percursos em terrenos acidentados e, rapidamente, evoluíram, mantendo as suas características de base: pneus grossos, sistema de mudanças mais complexo e quadros robustos (estrutura metálica da bicicleta).
Gary Fisher modificou a Schiwinn desenvolvendo um sistema de mudanças que permitisse utilizar a bicicleta em subidas íngremes e não só nas descidas abruptas e acidentadas.

Joe Breeze descobriu que o segredo do quadro das antigas Schinn não era a espessura dos tubos que formavam, mas sim a sua geometria.

Estes praticamente e impulsionadores juntamente com outros, como Charlie Cunnigham, Tom Richey, Mike Sinyard e Tim Neenan, que criaram um dos modelos mais famosos ( Stumpjumper), dinamizaram a prática desta modalidade criando as primeiras competições nos estados Unidos.

Graças a uma rápida expansão, hoje em dia são realizadas competições por todo o mundo tendo como base os regulamentos vigentes na U.C.I (União Ciclista Universal).
Em Portugal, como em todo mundo, pode-se praticar a B.T.T. (como vulgarmente conhecida) de duas formas com características próprias e com os seus especialistas: Cross Country, Downhill e Raide Maratona.

Como muitas outras actividades de ar livre, exige que o praticante se rodeie de uma série de apetrechos (capacete, cantil e calções almofadados) para tornar a prática mais gratificante, segura e eficaz.

Crosss contry

Crross contry é uma prova de bicicleta (B.T.T.) realizada em circuito fechado que consiste em efectuar um número certo de voltas (de acordo com a classe dos atletas), que podem perfazer uma distância de 6 a 10Km. As classes existentes são as seguintes: Séniores, Juniores, Cadetes, Veteranos, Senhoras e Elite. Existe também a classe de Promoção que não conta para o Campeonato mas que possibilita que praticantes que nunca entraram em competições o façam. Normalmente nesta classe só é dada uma volta ao circuito, mas podem ser dadas mais.

Downhill

Downhill é uma prova de descida, em bicicleta B.T.T., em que entra em jogo a capacidade de domínio da bicicleta em descidas abruptas, percorridas a grande velocidade. Estas provas são disputadas individualmente em duas mangas (cada concorrente desce duas vezes), das quais é apurado o melhor tempo.

Raide Maratona

Raide Maratona é uma prova em circuito aberto, em que é percorrido um trajecto de ida e volta entre dois locais. É realizada em dois dias e exige uma boa resistência por parte dos competidores pois é uma prova de longa duração.

BMX

Sendo esta uma bicicleta mais pequena, com rodas de 20 e 24 polegadas no caso das cruiser. As suas dimensões reduzidas e a escassez de acessórios, tornam esta bicicleta mais leve e, também devido ao pequeno raio de roda, muito ágil. Estas bicicletas não têm mudanças.

 Bicicletas de passeio

Finalmente existem as bicicletas de passeio ou lazer que adoptam vários tipos de quadros e tamanhos, quer do próprio quadro, quer do raio da roda. Normalmente as bicicletas de passeio também não vêm providas de sistema de mudanças, embora possa ocorrer. Existem bicicletas de passeio duplas, que permitem a sua utilização por dois ciclistas.

 Conclusão

Com este trabalho concluí que a história da bicicleta começou há muitos anos atrás quando Leonardo da Vinci representou num desenho, datado de 1490, uma máquina muito semelhante às modernas bicicletas, dotada inclusivamente de pedais e tracção por corrente.

Em 1790, um francês chamado Sivrac, construiu um veículo que denominou “Celífero” o que alguns historiadores consideram o antepassado mais antigo da bicicleta moderna.

Em 1816, o barão alemão Karl Friederich Cheistian Ludwing Von Drais adaptou uma direcção ao “Celerífero” e apareceu a “Draisiana”

Em 1820 o escocês Kikpatrick McMillan (1810-1878) adapta ao eixo traseiro duas bielas, ligadas por barras de ferro. Este foi um grande passo na história da bicicleta.

Em 1861, o francês Pierre Michaux (1813-1883) construiu outra bicicleta com pedais, mas agora adaptados à roda da frente. A partir de então, a bicicleta passou a ser cada vez mais aperfeiçoada e o ciclismo conta hoje com muitos adeptos.